Mandarei também um beijo para nosso livro. Este que foi escrito pela nossa própria história. Apenas nós entenderemos a leitura dele. As páginas estão escritas ora horizontal, ora vertical, ora diagonalmente, ora com tinta invisível. Louco e sem sentido, como nós. Para quê buscar sentido em tudo, como você mesmo fala? Temos nós mesmo sentido? Que importa? Cá estamos com uma pena na sua mão e um nanquim na minha, prontos para começarmos um novo tomo de uma mesma saga.
Declamarei um ode para as nossas pinturas. Se seus olhos chorarem tinta e pintarem tristezas, eu cuspirei solvente e as apagarei. Pintarei flores na sua barriga. Desenharei sementes em seu umbigo, e o cobrirei de terra, para que ali nasçam suculentos frutos. Nossa arte é surrealista, daquelas mesma com elefantes voadores e tigre saindo da boca de tigre. Mas nos cobrimos com o lençol, acendemos a lanterna e criamos esse mundo irreal para nós mesmos, totalmente alheio às atrocidades. Nesse mundo não há nada nem ninguém, exceto você. Você. Você.E quando abrimos os olhos, e nos separamos, me sinto um artista. Com minhas canetas e minha aquarela agora cheia de cores, pinto a nossa cena. Escrevo a nossa história. Danço a sinfonia. Lembro das nossas viagens. Viajo até a lua, e de lá te trago um pedaço de queijo. E você fica na janela, rindo porque me viu apontar no horizonte e roendo as unhas esperando os segundos que faltam para correr para os meus braços e montarmos um novo poema.